A rotatividade burra

Opinião de João A. Moreira 16-07-2019 00:19
Por João Almeida Moreira, correspondente de A BOLA no Brasil

Marcelo Lomba; Heitor, Roberto, Emerson Santos, Natanael; Rodrigo Lindoso, Rithely, Nonato; Sarrafiore, Sobis e Tréllez.

Este foi o onze inicial do Internacional na Arena Baixada, onde defrontou o Athletico Paranaense, no último domingo, em partida da 10.ª jornada do Brasileirão.

E o que tem de especial? É que todos os jogadores, à exceção do guarda-redes Lomba, são habituais suplentes da equipa treinada por Odair Hellmann.

«Todos tinham condições de viajar, mas a decisão foi não trazer. Estamos pensando na sequência toda, com três competições. Todo o mundo vai fazer isso ou está fazendo», justificou o treinador.

Por outras palavras, com vista ao encontro de amanhã à noite com o Palmeiras para a Copa do Brasil (derrota por 1-0 na primeira mão, em São Paulo) e do escaldante Gre-Nal (duelo com o rival Grêmio) no fim-de-semana, Hellmann optou por fazer descansar os titulares.

O resultado foi uma derrota, perante um Athletico com poucas mudanças, mesmo jogando, também amanhã, para a Copa do Brasil - no Maracanã, com o Flamengo.

Ou seja, o Inter, um dos clubes mais tradicionais e prestigiados do Brasil, mas a quem o título do Brasileirão escapa há exatos 40 anos, apesar de à entrada para esta jornada estar num ótimo quarto lugar, praticamente abdicou da vitória.

E, em nome da possibilidade de ter os titulares frescos para os encontros seguintes, deixou-se cair dois lugares na tabela.  

«A gente fica feliz por perder? Claro que não e nunca vamos aceitar uma derrota, pela grandeza e história do clube. Dói, fere. Mas há planeamento macro no clube», continuou Hellmann, que até é um treinador com provas dadas.

A rotatividade, como se diz em Portugal, ou turnover, como se usa em Inglaterra, é natural – os dois ou três jogadores mais cansados, após uma sequência de jogos, podem e devem ser poupados, e depois será a vez de outros dois ou três, e por aí adiante, mas sem jamais perder a estrutura titular.

No Brasil, dado o calendário obtuso desenhado pela CBF, talvez a rotatividade seja ainda mais natural.

Mas nenhum «planeamento macro», para usar as palavras de Hellmann, pode ser compatível com a substituição de todos os jogadores de campo de um encontro para outro. Nenhum clube resiste a esta espécie de onda de lesões e castigos imaginários que, de vez em quando, os treinadores infligem às próprias equipas. 

Horas antes do Inter entrar em campo, Jorge Jesus dizia na conferência de imprensa de após a goleada com o Goiás, por 6-1, em que fez alterações pontuais no onze, que com ele radicalismos desse tipo jamais ocorrerão: «Isso na Europa não se faz.»

Não devemos cair na tentação perigosa do eurocentrismo mas, de facto, no Velho Continente, a perspectiva de um treinador ferir as hipóteses de vitória da sua equipa na liga mudando 10 titulares em nome de um jogo a eliminar dias depois, só pode ser considerado burrice.

Hellmann disse que a derrota em Curitiba «doeu, feriu». Imagine o tamanho da dor e da ferida se perder também nos jogos para os quais poupou.

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