«Quantas vezes você foi campeão do mundo?»

Opinião de João A. Moreira 08-05-2019 17:20
Por João Almeida Moreira, correspondente de A BOLA no Brasil

Este argumento é utilizado normalmente por pachecos para encerrar discussões.

Para quem não conheça o termo, Pacheco era um torcedor ficcional da seleção brasileira criado no Mundial de 1982, que se tornou sinónimo do adepto que considera o Brasil acima do bem e do mal futebolísticos.

O pachequismo é, na aparência, o reverso da síndrome da auto-depreciação muito brasileira conhecido como complexo de vira-lata, inventada pelo dramaturgo Nelson Rodrigues, mas na essência, é semelhante porque, ensina-nos a psiquiatria, complexo de inferioridade e complexo de superioridade são frutos da mesma árvore patológica.

O pachequismo futebolístico brasileiro é também um fenómeno geracional: revela-se sobretudo naqueles, hoje com quase 70, que cresceram vendo o Brasil ser campeão mundial por sistema (em 1958, em 1962, em 1970); os mais jovens, que conviveram com mais insucessos do que sucessos e que têm interesses globalizados no futebol, são muito menos permeáveis ao fenómeno.

Os pachecos têm com o futebol uma relação de posse. Não dizem mas lá no fundo sentem que discutir futebol com eles é o mesmo que discutir whisky com um escocês, toiros com um madrileno, pizzas com um napolitano, fado com um lisboeta. O Brasil é o país do futebol e, portanto, nenhuma opinião sobre o jogo é mais relevante do que a dos nascidos no mesmo solo sagrado de Leônidas da Silva, Zizinho, Garrincha e, claro, Pelé.

Aliás, a discussão Pelé versus Messi (ou Pelé versus Maradona ou, quem sabe, Pelé versus Jesus Cristo) nem tem cabimento para os pachecos.

Não está em causa se Pelé foi de facto o maior de todos – é muito provável que tenha sido – mas a qualidade dos argumentos usados demonstra o estilo de raciocínio pachequista.

«Pelé foi três vezes campeão do mundo, duas delas como protagonista, quantas foi Messi?», afirma o Pacheco, indiferente ao facto do pequenino argentino ter ganho quatro vezes uma prova talvez tecnicamente mais forte do que um Mundial, a Liga dos Campeões, e sempre como protagonista.

«E marcou 1200 golos, o dobro do Messi...», sublinha Renato Maurício Prado, colunista do UOL que é o exemplo acabado de Pacheco, referindo-se a um número que inclui golos sobre seleções militares, de jogos de seleções contra clubes e outras originalidades que a FIFA não reconhece.

Argumentos que diminuem, em vez de exaltarem, o génio absoluto Edson Arantes do Nascimento. 

Mas se esses argumentos não chegam, vem o definitivo - na opinião do Pacheco. «E você, está aí a falar, mas afinal, quantas vezes foi campeão do mundo?».

A não ser que você esteja a discutir com campeões do mundo de verdade, como Ronaldo, Romário, Tostão ou Zagallo, que por acaso até costumam ser imunes ao pachequismo, responda simplesmente «tantas quantas você: zero!».

Da mesma maneira que ser compatriota de Egas Moniz e de José Saramago não faz de um português um prémio Nobel da medicina ou da literatura, ter um passaporte do país pentacampeão do mundo não transforma ninguém necessariamente em pentacampeão do mundo. 

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