Brasil declara independência. De Neymar

Opinião de João A. Moreira 08-07-2019 15:30
Por João Almeida Moreira, correspondente no Brasil

No Brasil, quando se imaginava a seleção a jogar sem Neymar, vinha de imediato ao subconsciente coletivo aquele grupo de alemães, a correr em direção à baliza de um grogue Julio Cesar, já depois de atropelarem Fernandinho, Luiz Gustavo, David Luiz e Dante pelo caminho, como uma manada de búfalos à solta. Pois é, o 7-1, do Mineirazo, que ontem completou cinco anos, aconteceu sem o craque em campo, lesionado, numa cama de hospital.

A partir de domingo, a memória mais vívida no Brasil da seleção a jogar sem Neymar será a de Daniel Alves de taça levantada, rodeado de Cebolinha, Gabriel Jesus, Alisson, Thiago Silva, Marquinhos, Coutinho, Arthur, Firmino e outros. Pois é, o 3-1 sobre o Peru na final da Copa América aconteceu sem o craque em campo, lesionado, a assistir ao lado do filho num camarote do Maracanã.

Os efeitos da transformação da “Neymardependência” para a “Neymarindependência” serão sentidos mais tarde. Mas não há dúvida de que parecem muito benéficos para a seleção.

Afinal, nunca antes da história do futebol brasileiro, um rei reinara tão absoluto.

Nem ele, o rei original, Pelé: em 1958, era apenas o mais novo (17 anos) dos génios que conquistariam o Mundial suiço, atrás do melhor jogador brasileiro da época, Didi, e, na melhor das hipóteses, lado a lado com Garrincha, que assumiria até o protagonismo em 1962. Nos anos 60 e 70, o santista reinou incontestado mas rodeado de príncipes reais como Rivellino, Tostão, Gerson, Jairzinho, Carlos Alberto e outros.

A Era Zico, teve o contraponto Sócrates. E Falcão. Romário, mesmo no auge, conviveu com o alter ego Bebeto. E depois com o início do consulado de Ronaldo Fenómeno, um rei que dividiu a coroa com aristocratas do calibre de Rivaldo, Kaká e, claro, Ronaldinho Gaúcho.

Tite, mesmo apoiando o jogador em campo e extra-campo, vinha lutando para reduzir a sua influência no jogo da seleção: com Luiz Felipe Scolari e Dunga, o índice de participação direta de Neymar em golos brasileiros (assistências ou concretizações) era de 42%; com o novo selecionador passou, contando apenas os jogos em que ele participou, para a casa dos 30. Parece detalhe e é mesmo – mas o futebol de hoje vive de detalhes.

Por outro lado, não há camisa mais pesada no mundo do futebol de seleções do que a brasileira por razões concretas – é o único pentacampeão mundial – e abstratas – não se concebe no país ficar em segundo, o Mundia é uma obsessão nacional.

Os efeitos da “Neymarindependência” são, portanto, também muito benéficos para o jogador.

Colocar todas aquelas toneladas verde-amarelas nos ombros de um só, como vinha sendo feito, é perigoso. Por causa desse peso, mas não só, Neymar revelara um comportamento excitável, inquieto e esquizofrénico que agora, graças à prova de humildade forçada por que passou ao assistir do camarote aos companheiros a festejar um título, pode curar.

O maior legado da Copa América para o Brasil, mas também para o número 10, é esse: a declaração de independência de Neymar.   

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